James Guillaume – A Internacional, vol. 1

A INTERNACIONAL: DOCUMENTOS E RECORDAÇÕES – VOLUME 1
James Guillaume

R$ 32,00

Capa Internacional Nova menorFormato: 14 X 21 cm
232 pgs.

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Este livro constitui o primeiro volume de uma obra central para a compreensão do movimento operário do século XIX: L’Internationale, documents et souvenirs (1864-1878), de James Guillaume, que aborda a trajetória da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), ou Primeira Internacional, como ficou depois conhecida. Apresentamos abaixo o conteúdo dos capítulos que compõem este livro.

Iniciando a primeira parte da obra, após um breve Prefácio em que o autor explica sua origem e conteúdo, Guillaume trata, no Capítulo I, dos primeiros passos da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), particularmente, e de maneira bem breve, de sua fundação em 1864, do estabelecimento do Conselho Geral e da documentação que determinou suas linhas gerais (estatutos e manifesto). Baseando-se nos fatos que presenciou, Guillaume recorre ao Memoire de la Fédération Jurassienne para tratar do início da AIT em diversas cidades na Suíça, assim como do desenvolvimento das idéias, das mobilizações iniciais e dos periódicos. Ele trata, também, da Conferência de Londres de 1865, que decidiu sobre o primeiro Congresso de 1866.

No Capítulo II Guillaume trata deste primeiro Congresso da AIT, realizado em Genebra, 1866. Recorrendo novamente ao Memoire, ele aborda a relevância dos mutualistas parisienses nas discussões e da pouca influência que o Congresso teve sobre os suíços, mas principalmente, das discussões que se deram sobre os Estatutos da AIT. Naquele momento, a AIT era ainda um tanto recuada, e colocava como objetivos agregar os trabalhadores em uma associação, sem distinção política ou religiosa, para aproximar as classes trabalhadoras dos diversos países. A delegação de 60 trabalhadores, presente no Congresso, representou um contingente significativo de trabalhadores da Inglaterra, França, Alemanha e Suíça. O que houve de mais relevante foi a discussão e a adoção dos Estatutos definitivos, que Guillaume trata de maneira bastante detalhada mostrando, inclusive, as diferenças que houve em termos de tradução de uma língua para outra e os reflexos políticos destas diferenças. Coloca, também, como foram se dando as preocupações com o caráter de classe desta associação. Dentre as conclusões, há o apontamento para o próximo Congresso, a ocorrer em 1867. O capítulo termina com uma carta de Marx, que preferiu não ir ao Congresso, ao dr. Kugelmann, em que revela que havia redigido o programa dos londrinos, faz críticas aos franceses em razão da influência de Proudhon, a quem critica significativamente, e defende a via política de transformação.

O Capítulo III trata do desenvolvimento da Seção do Locle com sua declaração de 1867 contra a insensata guerra entre Alemanha e França, colocando que quando a AIT estivesse suficientemente forte, os trabalhadores poderiam recusar-se às guerras. Conclui com um artigo satírico seu, publicado na época, que zombava do tratamento que a burguesia deu à declaração dos suíços.

No Capítulo IV o tema é o segundo Congresso da AIT, realizado em Lausanne, 1867. Guillaume utiliza o artigo “Memórias dos Congressos de Lausanne e Genebra” para recordar deste Congresso e também do Congresso da Liga da Paz e da Liberdade, que aconteceu em seguida, na cidade de Genebra. Descreve os participantes do Congresso de Lausanne e suas características, dentre eles: Walton, Eccarius, Swan, Lessner, Dupont, Chemalé, Murat, Martin, Garbe, Pioley, Reymond, Tanari, Longuet, De Paepe e Kugelmann. Passa pelos discursos de Coullery e chega às nove questões que compuseram a ordem do dia em Lausanne: os meios práticos para tornar a AIT um centro de ação para a classe operária, o crédito e os bancos populares, a emancipação do proletariado e seus riscos, o trabalho versus o capital, a educação e a questão da mulher, o Estado e as liberdades políticas. Foram relevantes, neste Congresso, as afirmações do mutualismo, do federalismo, a pregação do fim do salariato, o reconhecimento da importância da educação, a relação entre a emancipação social e a emancipação política e a afirmação do capitalismo como uma sociedade de classes dividida em exploradores e explorados. O Congresso, ainda, tirou uma mensagem para o Congresso da Paz em Genebra, decidiu que a sede do Conselho Geral ficaria em Londres e apontou Bruxelas como cidade para o próximo Congresso.

O Capítulo V descreve o primeiro Congresso da Liga da Paz e da Liberdade, realizado em Genebra em 1867. Utilizando a continuação do documento do capítulo anterior, Guillaume relata os acontecimentos deste Congresso passando por toda a expectativa que se deu em torno da presença de Garibaldi e sua a relação com os delegados da AIT. Amplamente assistido, o Congresso contou com uma série de discursos, sendo o mais esperado o do próprio Garibaldi, que afirmou, entre outras coisas, a solidariedade entre as nações, a destituição do papado, a religião de Deus – que justificava como sendo a religião da verdade e da razão –, a democracia e o direito do escravo para fazer guerra contra seus tiranos. Este e outros discursos concretizaram uma disputa entre os setores mais à esquerda, dentre os quais estava o socialismo da AIT, e outros setores mais conservadores. Os setores à esquerda afirmavam a necessidade do socialismo, a sociedade de classes, os males da religião, setor este que contou com o pronunciamento de Bakunin, falando sobre a questão russa e o federalismo, e contra a centralização e o nacionalismo. Os setores conservadores negavam a sociedade de classes, eram anti-socialistas e tinham certa repugnância em relação às reformas sociais. As conclusões do Congresso tentavam conciliar todos os setores. Merece destaque o discurso de De Paepe sobre o federalismo. O capítulo termina com uma discussão sobre uma versão negligente dos Estatutos da AIT publicada na França.

O Capítulo VI trata da aproximação entre as seções suíças da AIT, as lutas do Jura e a aliança entre alguns socialistas e conservadores. Guillaume expõe a relação dos socialistas com os democratas radicais; os primeiros tentavam uma aproximação com os segundos, que, diferentemente, consideravam os primeiros seus inimigos. Por meio de alguns artigos escritos para Diogène, Guillaume retoma as posições dos socialistas suíços. Reconhecendo-se como uma juventude radical, filha dos revolucionários de 1848, estes socialistas negam que os conservadores possam ter influência na nascente juventude. No final do capítulo, o autor discute as alianças de Coullery com os conservadores ex-realistas, a criação do periódico La Montagne e os episódios que o terminaram colocando Coullery no campo inimigo, como cúmplice e agente do partido conservador. Tendo uma das razões deste conflito sido a questão eleitoral, os socialistas do Locle suíço resolveram, daí para adiante, abster-se em todas as eleições políticas.

O Capítulo VII traz interessantes relatos sobre a greve da construção civil em Genebra e a AIT em Paris. A greve, que irrompeu em 1868, teve grande repercussão; constituiu-se em solidariedade, quando seções das fábricas de Genebra apoiaram as corporações da construção civil e utilizaram seu fundo de greve para apoio aos grevistas. Houve participação dos operários franceses, diferentemente das trade-unions inglesas, que negaram apoio. Diante da intensa mobilização dos operários genebreses, os patrões cederam a praticamente todas as reivindicações operárias, sendo que Brosset teve destaque na luta – o que mereceu um manuscrito de Bakunin, de 1871, em sua homenagem, e que consta neste capítulo. Depois, Guillaume discute a AIT em Paris e o problema de o governo ter resolvido dar fim na AIT e movido processos contra quinze de seus membros. O resultado disso foi que a associação, em Paris, deixou de ter existência legal, mas os membros continuaram ligados, individualmente, a uma sociedade de tipo internacional com sede em Londres.

O assunto desenvolvido no Capítulo VIII é o terceiro congresso da AIT, realizado em Bruxelas, 1868. O principal ato do Congresso foi a votação sobre a questão da propriedade fundiária, tema que já havia sido objeto de discussão no Congresso anterior. Foi aprovada a resolução de que minas, pedreiras, ferrovias, solos aráveis, canais, estradas, vias de comunicação e as florestas devem pertencer à coletividade social. O Congresso tratou também da questão das ferramentas de produção e das máquinas, defendendo que estas deveriam passar às mãos dos trabalhadores. Outra discussão importante tratou da Liga da Paz e da Liberdade, tendo sido deliberado que esta não tinha razão de ser, e recomendando que integrasse a AIT, o que foi firmado em uma carta enviada ao Congresso de Berna da referida Liga. O Congresso de Bruxelas declarou-se ainda contra a guerra, recomendando que os trabalhadores se opusessem a ela, com greve se necessário. Finalmente, outras seis questões foram tratadas: greves e sociedades de resistência, instrução integral, crédito mutual, redução da jornada de trabalho, cooperação e, finalmente, cadernos de trabalho.

Dois assuntos principais são tratados no Capítulo IX: o segundo Congresso da Liga da Paz e da Liberdade em 1868 e a Aliança. Guillaume relata as conseqüências que a decisão da AIT teve sobre a Liga e trata do trabalho que Bakunin vinha desenvolvendo dentro dela, tentando convertê-la ao socialismo. Em uma carta que Bakunin escreve a Vogt, então presidente da Liga, é possível entender seus propósitos e expectativas; mesmo vendo-se frustrado com a resolução da AIT sobre a Liga, trata da AIT com respeito e admiração. No Congresso da Liga, em uma discussão sobre as relações da questão econômica e social com a paz e a liberdade, Bakunin realizou um discurso que, alem de defender a igualdade, negou o comunismo estatista e afirmou o coletivismo. Apesar disso, a proposta dos socialistas foi rejeitada. Discutiu-se também a separação entre a Igreja e o Estado. Ao final do Congresso, um grupo de 18 socialistas – dentre eles Bakunin, Reclus e Fanelli – separou-se da Liga por discordar de suas posições contra a igualdade; este grupo, que constituiu imediatamente a Aliança Internacional da Democracia Socialista. A Aliança constituir-se-ia como ramo da AIT, dando certa continuidade ao projeto da Fraternidade[1], desenvolvido por Bakunin no período em que esteve na Itália, assunto este que Guillaume aborda recorrendo a um folheto russo do próprio Bakunin. O autor mostra tanto as concepções da Fraternidade, quanto as da Aliança, discutindo suas relações com a Liga da Paz e da Liberdade e depois com a AIT.

O Capítulo X trata de várias questões. Começa pelos passos da Seção do Locle e a polêmica que se deu entre os genebreses e o periódico La Voix de l’Avenir de Coullery, por seus problemas de administração e suas críticas a duas resoluções do Congresso de Bruxelas: primeiro em relação à propriedade coletiva, por esta negar a propriedade individual, e segundo pelas resoluções em relação à Liga da Paz, polêmica que contou com argumentos do próprio Coullery e de De Paepe; no livro, Guillaume reproduz os artigos em que se deu esta discussão. A Seção do Locle aderiu às resoluções de Bruxelas, declarando-se socialista mutualista, e votou uma mensagem aos democratas socialistas de Genebra. Além disso, o autor apresenta o projeto da Sociedade de Crédito Mútuo, do Locle, que concedia empréstimos sem juros e também da Sociedade de Consumo, uma cooperativa de consumo que tinha por objetivo beneficiar os trabalhadores, e cujo primeiro projeto foi a compra de um vagão de batatas.

Bakunin, sua estadia em Genebra e a fundação da Aliança são o tema do Capítulo XI. Guillaume inicia falando da influência de Bakunin na Suíça e da mensagem do Comitê genebrês da AIT aos espanhóis, com o programa da Aliança, na qual se defendia a liberdade e a igualdade e se colocava a necessidade da revolução social. Pelos problemas com Coullery e La Voix de l’Avenir, coloca-se a necessidade de criação de um novo periódico. As Seções de Genebra encarregaram-se de nomear uma comissão para decidir sobre o novo jornal e outra para fazer um projeto de regulamento para uma Federação das Seções Suíças de língua francesa, que se chamaria Federação Românica. Criado em Genebra o bureau central da Aliança, seus membros decidiram encontrar na cidade um grupo de aderentes que em outubro de 1868 encontrava-se com o nome de 85 pessoas, entre alemães, russos, poloneses, franceses e suíços; no entanto, esta iniciativa terminou não tendo muito sucesso. Fundada, a Aliança pediu entrada na AIT. O histórico de frustrações em relação ao terreno eleitoral fez os suíços abraçarem completamente a causa da revolução.

Guillaume inicia o capítulo XII tratando das primeiras atividades da cooperativa de consumo. Tendo realizado a compra de dois vagões de batatas, a cooperativa realizou significativo esforço para sua distribuição entre os trabalhadores; com o sucesso da experiência, comprou e distribuiu queijo. Mesmo com as frustrantes experiências no terreno eleitoral, os internacionalistas do Locle tentaram ainda uma participação no campo municipal, visando exercer influência sobre as o orçamento municipal, os impostos e a educação; chamaram o povo para defender seus próprios interesses. Esta tentativa também não obteve êxito, e com o objetivo de expor à população o ocorrido na assembléia eleitoral surgiu Le Progrès, que nasceu como um órgão da democracia radical. Guillaume trata ainda, neste capítulo, da conferência dada pelo professor Buisson e da mensagem de agradecimento a ele, que foi publicada no jornal.

Fechando este volume que agora publicamos, Guillaume trata, no Capítulo XIII, das resoluções de Neuchâtel, que nomearam uma comissão para criar um jornal, decidindo pela criação de L’Egalité, e outra para criar os estatutos da futura Federação Românica, que adotou um projeto de Bakunin. Guillaume publica a resposta de Bakunin, em apoio ao jornal, na qual defende a AIT e critica o socialismo burguês; menciona também as adesões francesas de Malon, Varlin, Reclus, as cartas de Jung e Eccarius e a recusa de Marx, que se justificou dizendo que estava com problemas de saúde e demasiadamente ocupado. Outros apoios chegaram: da Alemanha, Becker; da Itália, Gambuzzi e Tucci; da Bélgica, De Paepe, além de um apoio não-identificado da Espanha. Guillaume conclui o capítulo relatando o episódio do pedido de adesão por parte da Aliança à AIT; coloca a desconfiança de Marx, publica uma carta bastante elogiosa que Bakunin escreveu a Marx explicando-lhe sua proposta de “igualização das classes e dos indivíduos”, e enviando-lhe o programa da Aliança. Neste ínterim, o Conselho Geral recusou a solicitação de adesão da Aliança, justificando que um outro corpo internacional dentro da AIT tenderia a desorganizá-la, realizando um paralelo entre esta decisão e aquela sobre a Liga da Paz e da Liberdade do Congresso de Bruxelas. Em seguida Guillaume publica uma carta de Marx comentando a correspondência de Bakunin a Jung e pedindo que evitasse a aproximação que se evidenciava entre De Paepe e a Aliança.

[1] Adotamos, para efeito de não confundir o leitor, a mesma nomenclatura que Max Nettlau, considerando a organização criada por Bakunin em 1864, a Fraternidade, apesar de ela ser apresentada freqüentemente com outros nomes (inclusive Aliança), o que é o caso deste livro, e a organização de 1868, a Aliança. Ver as reflexões sobre os nomes das organizações que o próprio Guillaume realiza.

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